Guaraína Sport Club
Ficha Técnica
- Nome completo
- Guaraína Sport Club
- Fundação
- Setembro de 1936
- Extinção
- 1939 (atividades futebolísticas) / 1940 (reaberto como Clube Guaraína)
- Localização
- Rio de Janeiro, RJ, Brasil
- Bairro-sede
- São Cristóvão (Praça de Esportes)
- Cores oficiais
- Verde e Branco (Alviverde)
- Presidente fundador
- Dr. Mario Gonçalves
- Principal competição
- Torneio Aberto de Football (LCF) 1937
GUARAÍNA SPORT CLUB: A EFÊMERA TRAJETÓRIA DO ALVIVERDE FARMACÊUTICO NO FUTEBOL CARIOCA DOS ANOS 1930
Introdução: O futebol como vitrine comercial na Era Vargas
A década de 1930 representou um período de profundas transformações no futebol brasileiro, particularmente no cenário carioca. Enquanto o país vivia sob o regime de Getúlio Vargas e experimentava um acelerado processo de industrialização e urbanização, o esporte bretão passava por sua própria revolução: a transição do amadorismo para o profissionalismo. Neste contexto turbulento, onde clubes tradicionais se dividiam entre duas ligas rivais e disputavam não apenas campeonatos mas também o controle político do futebol local, surgiu uma agremiação singular que simbolizava uma nova relação entre o esporte e o mundo corporativo: o Guaraína Sport Club.
Fundado em setembro de 1936 por um grupo de auxiliares e entusiastas vinculados aos Laboratórios Raul Leite & Cia., o Guaraína Sport Club representou uma faceta peculiar do futebol carioca pré-pacificação. O clube não surgiu das camadas populares dos subúrbios nem das elites da Zona Sul, mas sim do ambiente farmacêutico-industrial que começava a enxergar no esporte uma poderosa ferramenta de marketing e coesão entre funcionários. Sua breve existência — encerrada oficialmente em 1939, com uma efêmera reabertura como clube social em 1940 — coincide justamente com o período mais conturbado da cisão entre profissionais e amadores, culminando com a histórica "Solução Dois Pedros" que pacificaria o futebol do Rio de Janeiro em 1937.
O contexto histórico: A cisão do futebol carioca (1933-1937)
Para compreender adequadamente o ambiente no qual o Guaraína Sport Club nasceu e atuou, é imprescindível recuar alguns anos e examinar a grave crise que assolava o futebol da capital federal. Em 23 de janeiro de 1933, liderados pelo Fluminense, os clubes America, Bonsucesso, Bangu e Vasco da Gama fundaram a Liga Carioca de Football (LCF), a primeira entidade profissional do futebol carioca. A iniciativa rompeu definitivamente com a tradicional Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA), defensora ferrenha do amadorismo.
O Botafogo, campeão em 1930 e 1932, posicionou-se terminantemente contra a profissionalização, permanecendo fiel à AMEA. O Flamengo e o São Cristóvão inicialmente acompanharam o alvinegro nesta resistência. Entretanto, durante o campeonato da AMEA de 1933, Flamengo e São Cristóvão abandonaram a disputa, e o rubro-negro acabou ingressando tardiamente no campeonato profissional da LCF. O Vasco, após sagrar-se campeão da LCF em 1934, também migrou para a Federação Metropolitana de Desportos (FMD), entidade que sucedeu a AMEA e congregava os clubes amadoristas.
Esta divisão institucional gerou uma situação insustentável: duas ligas paralelas organizando campeonatos cariocas simultâneos, enfraquecendo mutuamente os clubes e as competições. Conforme registra o jornalista André Luiz Pereira Nunes, "ao fim de 1936, as agremiações estavam todas na pindaíba". Clubes grandes como America, Flamengo, Fluminense, Bonsucesso, Modesto e Portuguesa compunham a LCF profissional, enquanto Botafogo, Vasco, Andaraí, Bangu, Madureira, São Cristóvão, Carioca e Olaria integravam a FMD amadorista.
O nascimento do Guaraína: Um clube-empresa avant la lettre
Foi precisamente neste cenário fragmentado que surgiu o Guaraína Sport Club, em setembro de 1936. O nome escolhido para a agremiação não guardava qualquer relação com topônimos cariocas ou referências indígenas diretas, mas constituía um inteligente — e para a época, visionário — exercício de naming rights espontâneo. "Guaraína" era o principal produto comercializado pelos Laboratórios Raul Leite & Cia., um tônico medicinal anunciado como eficaz contra "mal-estar, dores de cabeça, ouvidos ou dentes provenientes da tensão nervosa".
A iniciativa de fundar um clube de futebol vinculado a uma indústria farmacêutica não era completamente inédita, mas certamente representava uma tendência que se consolidaria nas décadas seguintes. O clube instalou sua Praça de Esportes na Avenida Bartolomeu de Gusmão, s/n, no bairro de São Cristóvão, Zona Norte do Rio de Janeiro, região que na década de 1930 concentrava importantes instalações industriais e abrigava uma numerosa classe operária. A sede administrativa, entretanto, localizava-se no coração financeiro da cidade: Praça XV de Novembro, nº 42, 1º andar, Centro.
A primeira diretoria do Guaraína refletia a estreita ligação com o universo farmacêutico-empresarial. O presidente fundador foi o Dr. Mario Gonçalves, tendo como vice-presidente Rodrigo dos Santos Capella. Completavam a cúpula diretiva: Celestino Cardoso (secretário), Raul Barreto de Sá (1º tesoureiro), Edgard Vieira (2º tesoureiro), Armando Pelizone (diretor sportivo), Octavio Cunha (procurador) e Nicolino Zagari (consultor técnico). Interessante notar que Raul Barreto de Sá acumulava funções administrativas com a condição de atleta, atuando como atacante da equipe principal.
O time que o Guaraína colocou em campo em 1936 era composto por: Mendonça (goleiro); Le Rothier e Loureiro (defensores); Pelizone, Quintino e Wilson (meio-campo); Lourival, Sá, Romualdo, Guilhermino e Santa Rita (ataque). Um elenco modesto, formado majoritariamente por funcionários do laboratório e alguns praticantes do futebol amador da região.
A "Solução Dois Pedros" e a pacificação de 1937
Enquanto o Guaraína dava seus primeiros passos no futebol amador, os bastidores do esporte carioca fervilhavam com negociações para pôr fim à cisão. Em 1936, dois influentes dirigentes — Pedro Magalhães Correia, presidente do America e grande acionista do Banco do Brasil, e Pedro Pereira Novaes, presidente do Vasco e importante negociante de couros — reuniram-se secretamente na Associação dos Empregados do Comércio para arquitetar a reunificação.
O plano, que ficaria conhecido como "Solução Dois Pedros", previa reunir os doze principais clubes do Rio de Janeiro — independentemente de pertencerem à LCF ou à FMD — em uma nova entidade, com prazo de um ano para que todos se adequassem às exigências profissionais. A proposta foi aceita e, em 29 de julho de 1937, era oficialmente criada a Liga de Futebol do Rio de Janeiro (LFRJ), tendo como primeiro presidente Antonio Avellar, dirigente ligado ao America.
Os doze clubes fundadores da LFRJ foram: Andaraí, America, Bangu, Botafogo, Bonsucesso, Fluminense, Flamengo, Vasco, Olaria, Madureira, São Cristóvão e Portuguesa. O Campeonato Carioca de 1937 foi o primeiro a reunir todas as grandes forças do futebol local desde 1932. Vale destacar que, no momento da reunificação, o São Cristóvão liderava o campeonato da FMD, que acabou interrompido ao fim do primeiro turno. A entidade proclamou os Cadetes campeões, título que até hoje não foi oficializado pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro.
O Torneio Aberto de 1937 e a participação do Guaraína
Foi neste ambiente de reorganização do futebol carioca que o Guaraína Sport Club teve seu momento de maior visibilidade. Em 1937, o clube inscreveu-se no Torneio Aberto promovido pela LCF, competição que servia como uma espécie de seletiva para clubes não filiados que almejavam ingressar no campeonato principal.
A campanha do alviverde foi breve, porém registrada pela imprensa esportiva da época. Na fase preliminar, o Guaraína enfrentou outras agremiações modestas. Em 11 de abril de 1937, venceu o Sampaio por W.O. (1 x 0). Onze dias depois, em 22 de abril, foi eliminado pelo combinado das Escolas de Samba, perdendo por 4 a 3 em partida decidida na prorrogação.
Para esta competição, o Guaraína apresentou uma equipe reforçada em relação ao time de 1936. O goleiro Joaquim substituiu Mendonça; a defesa contava com Moacyr — zagueiro experiente com passagens por Vasco e America — e Oliveira, ex-Tupy de Juiz de Fora; o meio-campo era formado por Sá (novamente acumulando funções de dirigente e atleta), Lalá e Nascimento; e o ataque trazia Jarbas, Cirio, Hyppolito, Manoelzinho e Antoninho. A presença de Moacyr e Oliveira demonstrava a ambição do clube em formar um plantel minimamente competitivo, ainda que para uma participação efêmera.
O declínio e a transformação em clube social
Após a eliminação no Torneio Aberto, as atividades futebolísticas do Guaraína diminuíram drasticamente. O ano de 1938 transcorreu sem que o clube disputasse partidas oficiais relevantes. Uma tentativa de retomada em 1939 não logrou o êxito esperado, levando ao encerramento definitivo das atividades esportivas ainda naquele ano.
O destino do Guaraína, entretanto, não foi o completo desaparecimento. Em dezembro de 1940, a agremiação foi reaberta sob a denominação simplificada de Clube Guaraína, agora com foco exclusivo em atividades recreativas e sociais. Bailes, eventos dançantes e confraternizações substituíram as chuteiras e os embates nos gramados. Esta metamorfose — de clube de futebol para clube social — não era incomum entre pequenas agremiações da época, que encontravam na vida noturna e nos salões
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