OUVIDOR FOOTBALL CLUB
Informações gerais
Centro – Rio de Janeiro/RJ
Fundação e Primeiros Passos
O Ouvidor Football Club foi fundado na segunda-feira, 5 de outubro de 1914, no coração do Centro do Rio de Janeiro. A agremiação nasceu por iniciativa de um grupo de distintos rapazes do comércio local, liderados pelos negociantes José Borges Leal e Manuel Rodrigues Fampa, figuras proeminentes da Rua do Ouvidor e da Praça XV de Novembro, respectivamente. A sede do clube foi estabelecida no sobrado de número 4 da Rua do Ouvidor, uma das vias mais emblemáticas da cidade, que à época já concentrava o comércio de luxo e a efervescência cultural da capital federal.
A escolha do nome "Ouvidor" foi uma homenagem direta à rua que abrigava sua sede e campo, mas também remetia à tradição histórica do logradouro, que no século XVIII serviu de residência aos ouvidores-gerais, autoridades responsáveis pela administração da justiça no período colonial. O clube adotou como cores oficiais o verde e o branco, combinação que lhe rendeu a alcunha de "Alviverde". A primeira diretoria foi constituída com Manuel Rodrigues Fampa na presidência, Adelino da Silva como vice-presidente, João Pereira Ferreira como 1º secretário e Arthur Fernandes Baptista como 1º tesoureiro, entre outros membros.
O Ouvidor FC possuía um campo de sports no antigo Mercado Velho, também situado na Rua do Ouvidor. Este local, que outrora abrigara um mercado municipal, foi adaptado para a prática do futebol, tornando-se o palco dos primeiros jogos da agremiação. A localização central, próxima ao porto e ao comércio, facilitava a reunião dos jogadores e torcedores, muitos deles trabalhadores do comércio e das redações de jornais que funcionavam nas imediações.
A Primeira Partida e os Confrontos Iniciais
Apenas oito dias após a fundação, na terça-feira, 13 de outubro de 1914, o Ouvidor Football Club entrou em campo pela primeira vez. Jogando em seus domínios, no campo do Mercado Velho, a equipe alviverde enfrentou o Globo Football Club, outra agremiação do Centro carioca. O resultado, contudo, não foi favorável: o Ouvidor foi derrotado por 1 a 0, com gol de Mequinho. Nos Segundos Quadros (equipes reservas), nova derrota, desta vez por 1 a 0, com gol de Sylvio.
Apesar do revés inicial, o clube rapidamente soube "impor-se à consideração e estima das demais sociedades congêneres", como registrou a imprensa da época. O Ouvidor FC tornou-se uma presença constante nos campos de várzea e nas competições suburbanas que fervilhavam no Rio de Janeiro das décadas de 1910 e 1920. Embora não tenha conquistado títulos de grande expressão, o clube cumpriu seu papel como espaço de sociabilidade e prática esportiva para os trabalhadores do comércio e moradores do Centro.
Entre os adversários enfrentados pelo Ouvidor FC estavam clubes como o próprio Globo, o Palmeiras (de São Cristóvão), o Bangu, o Andarahy e outras agremiações que compunham o vibrante ecossistema do futebol carioca na era amadora. Cada partida era um evento que mobilizava a comunidade local e alimentava as páginas esportivas dos jornais como a Gazeta de Notícias, O Paiz e O Imparcial, que cobriam extensivamente o futebol de várzea na capital federal.
As Formações Históricas do Alviverde
Graças ao meticuloso trabalho de pesquisa histórica, é possível conhecer as escalações titulares do Ouvidor Football Club em diferentes momentos de sua trajetória. Em 1914, o primeiro time era formado por: Honório (Russo) no gol; Peixoto e Bernardino na zaga; Figueiredo (Antenor), Carvalho e João (Mario) no meio-campo; e Salvador (Botafogo), Campista (Miranda), Coelho, Polaco (Alves) e Abílio (João) no ataque. O segundo time também foi registrado, demonstrando que o clube já contava com um elenco numeroso em seu primeiro ano de existência.
Em 1915, a equipe principal sofreu alterações, passando a contar com: Lauriano (goleiro); Rômulo e Tico (zagueiros); Carvalho, Mario e Emílio (meio-campo); e Octacílio, Polaco, Trindade, Pires e Tupy no ataque. Os reservas incluíam Abílio, Ferreira e Marreco. Já em 1919, a escalação do primeiro time era: Gonçalves Dias – que curiosamente acumulava as funções de goleiro e presidente do clube; Fernandes e Domingos na defesa; Alfredo, Maneco e Argentino no meio; e J. Motta, Guerreiro, Maidossa, Salvador e Ferreira no ataque.
A preservação dessas escalações é um testemunho valioso da história do futebol carioca, permitindo que nomes de jogadores amadores, que de outra forma estariam perdidos no tempo, sejam lembrados e celebrados como parte da rica tapeçaria do esporte brasileiro.
Rua do Ouvidor: O Berço do Alviverde
A Rua do Ouvidor é um dos logradouros mais históricos e emblemáticos do Rio de Janeiro. Aberta em 1567, inicialmente como um simples caminho que ligava o Largo de São Francisco aos armazéns do antigo porto, a rua passou por diversas denominações ao longo dos séculos. No século XVIII, serviu de residência para os ouvidores-gerais, autoridades judiciais que deram nome à via. A partir de 1820, com a chegada da Família Real portuguesa e a abertura dos portos, a Rua do Ouvidor transformou-se no epicentro da moda e do comércio de luxo da cidade.
No início do século XX, quando o Ouvidor Football Club foi fundado, a rua já era conhecida como o "coração do Rio". Abrigava as principais lojas de tecidos, joalherias, livrarias e redações de jornais. Era o ponto de encontro da elite carioca e da intelectualidade, que se reunia nas confeitarias e cafés para discutir política, literatura e, cada vez mais, futebol. O Mercado Velho, onde o clube instalou seu campo, era um remanescente de uma era anterior, que foi adaptado para atender à nova paixão nacional.
É notável que um clube de futebol tenha florescido no Centro da cidade, em uma rua tão densamente urbanizada e comercial. Isso demonstra como o futebol, nas primeiras décadas do século XX, ainda encontrava espaços improvisados para sua prática, mesmo no coração da metrópole. O Ouvidor FC foi, assim, um representante singular do futebol carioca: não um clube de bairro suburbano, mas uma agremiação do Centro, ligada ao comércio e à vida urbana mais intensa da capital federal.
Declínio e Desaparecimento
Como a grande maioria dos pequenos clubes fundados na era amadora do futebol carioca, o Ouvidor Football Club não sobreviveu às transformações que o esporte sofreu a partir da década de 1930. A profissionalização, a consolidação dos grandes clubes e a crescente dificuldade de manter campos de futebol em áreas centrais e valorizadas da cidade contribuíram para o desaparecimento gradual da agremiação.
Não há registros precisos sobre a data exata de extinção do clube, mas sabe-se que ele deixou de figurar nas competições e nas crônicas esportivas em meados da década de 1930. O antigo campo do Mercado Velho certamente cedeu lugar a novas edificações, e a sede na Rua do Ouvidor nº 4 foi absorvida pela dinâmica comercial da região. O Ouvidor FC desapareceu sem deixar vestígios físicos, mas sua memória foi preservada graças ao trabalho de pesquisadores e historiadores do futebol.
Legado e Preservação da Memória
O Ouvidor Football Club representa um capítulo fascinante e pouco conhecido da história do futebol carioca. Diferentemente dos clubes suburbanos que floresceram na Zona Norte e Zona Oeste, o Ouvidor FC fincou raízes no Centro da cidade, na sofisticada Rua do Ouvidor, demonstrando a capilaridade que o futebol alcançou nas primeiras décadas do século XX. O clube foi, simultaneamente, um produto e um agente da modernização urbana e cultural do Rio de Janeiro.
O resgate da memória do Ouvidor FC deve-se, em grande parte, ao trabalho incansável de sites especializados como o "História do Futebol", que documentam e preservam os vestígios desses clubes esquecidos. O escudo alviverde que sobreviveu ao tempo é hoje uma peça de colecionador e um documento histórico que atesta a riqueza e a diversidade do futebol carioca para além dos quatro grandes clubes. A preservação de suas escalações, datas e eventos é um tributo aos "distintos rapazes do comércio" que, em 1914, sonharam em ter seu próprio clube de futebol no coração da cidade.
Dados Complementares
José Borges Leal (Rua do Ouvidor) e Manuel Rodrigues Fampa (Praça XV de Novembro), grandes negociantes locais.
Camisa verde com detalhes brancos, calção branco e meias verdes. O uniforme reserva era predominantemente branco.
Antigo Mercado Velho, na Rua do Ouvidor – local adaptado para a prática do futebol.
Rua do Ouvidor, nº 4 (Sobrado) – Centro, Rio de Janeiro – RJ.
Bibliografia e Fontes Consultadas
- História do Futebol (Sérgio Mello) – Ouvidor Football Club – Rio de Janeiro (RJ). Acervo detalhado com fundação, cores, escalações e primeiro jogo. Link
- Escudos Gino – Ouvidor FC – RJ. Repositório de escudos históricos de clubes cariocas.
- Wikipédia – Rua do Ouvidor (Rio de Janeiro) – História e importância do logradouro no Centro do Rio.
- MultiRio – A Rua do Ouvidor é o Rio de Janeiro – Contexto histórico da rua nos séculos XIX e XX.
- Jornais da época: Vida Sportiva (RJ), Gazeta de Notícias, O Paiz, O Imparcial – Cobertura jornalística das atividades do Ouvidor FC.
- RSSSF Brasil – Arquivos estatísticos do futebol carioca nas primeiras décadas do século XX.
Pesquisa realizada em abril de 2026. O escudo apresentado está em sua resolução original (2048px), preservando as cores verde e branco características do "Alviverde".
Fundado em 5 de outubro de 1914 por comerciantes da Rua do Ouvidor, no Centro do Rio de Janeiro, o Ouvidor Football Club foi uma agremiação alviverde que se destacou no cenário do futebol amador carioca. Com sede no sobrado nº 4 e campo no antigo Mercado Velho, o clube disputou partidas contra equipes como Globo, Palmeiras e Bangu ao longo das décadas de 1910 e 1920. Suas escalações históricas de 1914, 1915 e 1919 foram preservadas, revelando nomes como Gonçalves Dias – goleiro e presidente – e o atacante Polaco. O clube desapareceu em meados da década de 1930, mas sua memória permanece como um testemunho singular da presença do futebol no coração comercial e cultural da cidade.
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